O início do 1º
capitulo, jaz estou acelerado na atividade neuronal, pensar nas hipóteses
cientificas para dar mais coerência a essa ficção.
Capitulo 01
O dia é 15 de março de 2026. Estou caído, com o
corpo inteiro coberto de barro e lama. Sei que são 16h00. Sei que estou em um
terreno baldio da área industrial da minha cidade, Campo Grande, Mato Grosso do
Sul. Não estou ferido nem sangrando, mas meu corpo está repleto de dor. Não
consigo me mover. Sou prisioneiro de uma paralisia horrível que me obriga a
encarar o céu, enquanto a chuva enche meus olhos com água gelada e pesada.
Ouço vozes de crianças rindo, felizes, correndo
sob a chuva que desaba sem piedade. Agarro-me à esperança de que me vejam e me
socorram. Uma pergunta brota depressa em minha cabeça, cortando o desespero com
a lucidez amarga de quem ainda pensa, mesmo à beira do colapso: como essas
crianças poderiam me socorrer? O que, de fato, poderiam fazer por mim naquele
estado?
A resposta não demorou a chegar.
As vozes se aproximaram. Vultos surgiram por trás
da água que cobria minha visão, distorcidos pela chuva e pelo tremor silencioso
do meu próprio horror. Tentei piscar para espantar um pouco da água que teimava
em me cegar. Não consegui. Nem isso. As vozes infantis, antes leves, mudaram de
tom e decidiram chamar o pai.
— Chama o pai! Fala que tem um homem morto aqui! — A voz demonstrava
urgência e medo, quase um grito rasgado pela chuva.
Tentei respirar fundo, apenas para avisar às crianças que eu estava vivo. O
movimento quase imperceptível que consegui arrancar do meu peito chamou a
atenção do menino debruçado sobre mim.
— Se mexeu! Ele tá vivo!
Uma vitória, afinal. Pequena, miserável, mas
vitória. No meu íntimo, eu já me preparava para passar três longos dias naquele
estado. Já havia experimentado esse congelamento do corpo antes, essa prisão
silenciosa em que a consciência permanece acordada enquanto a carne deixa de
obedecer. O tempo passará, pensei, tentando consolar minha alma aflita com uma
frase simples, quase ritualística. O tempo passará.
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